sábado, 29 de agosto de 2015

[conto] Super

Em algum momento da infância, a maioria se questiona se foi abençoado com dons sobrenaturais. As conversas sobre quais super poderes gostariam de ter é um passa tempo delicioso. Imaginar-se voando, lendo mentes e tendo super força é o tipo de coisa que faz as pequenas felicidades do dia-a-dia de uma criança. Mas a ideia de ser especial vai morrendo aos poucos e quando o sujeito se vê pagando o boleto do cartão de crédito, a conta de luz e é assaltado na esquina de casa... A ideia já está morta e enterrada. Ser adulto é reconhecer que ninguém é especial. Somos todos grãos de areia e nunca passaremos disso. Bem vindo à realidade.
Marina foi uma dessas crianças. Quando era pequena, seu sonho era conversar com os animais. Por muitas vezes ela tentou conversar com cães, gatos e até mesmo galinhas do sítio de seu tio. Cresceu, descobriu que os cães se orientam pelo tom da voz das pessoas, e não pelas palavras ditas. Não foi uma frustração, ela apenas aceitou. Aconteceu o mesmo quando descobriu que o Papai Noel era seu tio (o dono do sítio onde estavam as galinhas).
Quando Marina ficou ainda mais velha, decidiu que queria ser geneticista. Nascida em família humilde, onde dois ou três tinham nível superior e a maioria frequentava a igreja regularmente, ninguém criticou sua escolha, porque na verdade nem sabiam o que um geneticista faz. “É coisa com célula tronco?”, perguntou a prima. Inicialmente ela quis exatamente aquilo, mas sua mente foi mudando aos poucos. A influência religiosa naquela família abriu as portas para novos questionamentos científicos.
Mariana não se lembrava como foi a conversa com sua mãe, mas sabia que estavam falando sobre os milagres de Cristo. Mariana debandara da igreja, mas continuava sendo cristã. Acreditava em milagres, mas queria entende-los. Sua mãe explicou com uma frase decorada: “Jesus é o filho de Deus! Ele podia curar e andar sobre as águas porque é superior a nós, mortais”.
Então Jesus era superior mesmo, mas ele era de fato um ser humano? Aquilo já tinha sido proposto por dezenas de teóricos, mas Mariana decidiu que era um ótimo assunto para se aprofundar. Inicialmente com uma pesquisa do Google, depois com outros pesquisadores... Quem sabe chegar ao Vaticano, não?
Depois de muita leitura e conversas com pessoas adeptas à teorias da conspiração, Mariana decidiu conversar pessoalmente com outro pesquisador do mesmo tema. Marcaram em um café da cidade, chegaram na hora e pediram dois cafés. Mariana bateu papo com Dr. Costa, mas que logo insistiu para ser chamado de Paulo. Era um senhorzinho simpático.
– Como já havíamos conversado por telefone, eu estou muito interessada em suas pesquisas.
– Por que pesquisar o que tantos outros já pesquisaram?
– Porque até hoje ninguém chegou a uma resposta. Eu acredito que se unirmos nossos esforços, talvez nós possamos...
O pesquisador levantou a mão pedindo que ela parasse de falar.
– Eu parei com as pesquisas e sugiro que você faça o mesmo. Eu vim até aqui para lhe dizer justamente isso. Está estudando coisas que não deviam ser estudadas.
O tom na voz dele era diferente. Era uma advertência vestida de conselho. Mariana ficou alguns segundos quieta, olhando para o homem. Ele então tirou a carteira do bolso, colocou dinheiro na mesa e se levantou.
– Por quê?
– Apenas faça o que eu disse.
Obviamente Mariana ignorou o conselho do velho cientista. Talvez a idade estivesse confundindo a mente dele, ou talvez quisesse assustá-la para evitar uma concorrente de alguma descoberta. Alguma super descoberta.
Continuando suas pesquisas – agora em bibliotecas públicas e universidades – Mariana começou a dedicar mais tempo às suas pesquisas.  Meses depois ela havia acumulado tantas anotações que começava a pensar em desistir. Não conseguia chegar a nenhuma conclusão, ainda que tivesse descoberto várias ligações entre centenas de “seres superiores” em diversas culturas durante toda a História da humanidade. Não apenas deuses cultuados pelos seres humanos, mas pessoas comuns com habilidades únicas.
Decidiu que publicaria o estudo. Sua primeira opção foi uma revista científica que gostou da ideia e aceitou a proposta. Um repórter viria fazer entrevistas no dia seguinte. A eficiência não deixou Mariana desconfiada, mas deveria.
O encontro com o repórter se deu em uma lanchonete não muito interessante. Era um rapaz sério, cabelos pretos, camisa branca... E estranho. Ele era quieto demais para ser um repórter, observou Mariana. Ele fez perguntas, anotou em seu bloquinho e gravou tudo em um gravador portátil. Quando Mariana terminou de explicar suas descobertas e tirou os arquivos da bolsa, o repórter estava digitando algo em seu celular.
– Preciso publicar isso com exclusividade. Divulgou o caso para outras pessoas?
– Não... Minha família sabe. –pensou melhor e completou– E falei com Paulo Costa, que era pesquisador do assunto, mas ele não quis me ajudar.
– Ótimo. –o repórter disse fechando o bloquinho de papel– Quero que preste muita atenção no que vou lhe dizer: esse é um assunto que não deve ser mencionado nunca. Você voltará para sua casa, queimará todos os arquivos desse assunto e continuará sua vida.
De repente ela entendeu o tom do velho pesquisador. Sentiu medo e olhou ao redor... A rua estava cheia, mães andando de mãos dadas com seus filhos, um cara andando com um cachorro, dois rapazes rindo... Muitas testemunhas.
– Ou o quê? Você não pode me matar no meio da rua, na frente de todo mundo.
O homem arqueou as sobrancelhas um instante. Ele ergueu a mão e todas as pessoas pararam de andar ao mesmo tempo. No instante seguinte todos se viraram para a direção oposta da lanchonete. Todas as pessoas estavam de costa, incluindo os clientes da lanchonete. Eram como robôs desligados da tomada. Mariana sentiu as mãos começando a tremer compulsivamente. O tempo não tinha parado, as pessoas sim.
– O que você fez?
– Sua pesquisa fala sobre seres superiores que têm poder individual, como os gênios; mas também fala do poder sobre os outros, como os santos. O que acha que eu fiz?
Ele era um daqueles seres superiores, sem dúvida. Ele vai me matar, constatou Mariana.
– O mundo não precisa saber desse tipo de coisa. Se precisasse, nós mesmos falaríamos. Não vou te fazer nenhum mal se aceitar esses termos, mas se falar sobre o assunto com uma única pessoa no mundo, nós saberemos. Nós sabemos onde você mora e conhecemos sua família. Conheço seu passado e conheço seu futuro. Sei como você nasceu e como vai morrer. Não somos os vilões, Mariana... Somos os heróis. Esses são assuntos muito mais complexos e antigos do que você pensa. Sua pesquisa não chegou nem perto da verdade, mas isso mexeria muito com sua sociedade. Vocês não estão preparados pra isso.
Ele abaixou a mão e as pessoas voltaram a se movimentar.  Ninguém percebeu que alguma coisa fora do normal tinha acabado de acontecer. Tudo estava na maior e absoluta paz.
– Ok, juro que não tocarei mais no assunto... –ela disse, respirando fundo– Mas pode me dizer o quê você é?
Mariana ouviu uma vozinha em sua mente, como um sussurro... Ela dizia “comida, comida” sequencialmente. Seus olhos correram para a calçada, onde uma pomba cinza comia um pedaço de pão sujo. “Comida”, dizia a pomba mentalmente. Seus olhos foram para o rapaz que continuava passeando com o cachorro na rua. “Cheiro de outro cão, cheiro de carne, barulho estranho, cheiro de rato...”. Ela voltou a olhar para o suposto repórter e então as vozes pararam. Seu sonho de infância se realizara por breves segundos. Aquilo era mágico, mas também era uma ameaça. De alguma forma, ele sabia tudo.
– Já tive muitos nomes. Sou um pedaço do que seu mundo chamaria de deus.
– Um pedaço? –mas ela logo se colocou em seu lugar e calou-se.
A criatura a sua frente sorriu. Era um sorriso calmo. Os pensamentos de Mariana se agitavam em sua mente. Tudo o que sabia sobre ciência e religião se debatiam. Ele era um anjo? Ele era um deus antigo? Ele era um espírito? Ele era Deus? Ele era...?
– Vocês, humanos, são engraçados. Gosto de vocês. Não sou nada do que você pensou, mas sou tudo ao mesmo tempo. Agradeceria que você mantivesse o acordo e nunca falasse disso. Farei com que você se esqueça de muitas partes dessa conversa, mas a ideia central continuará em sua mente. Não sou assim tão cruel. Agora, por favor...
Ele estendeu a mão sobre a mesa. Mariana estendeu a própria mão para tocá-lo, mas não se lembrava de ter conseguido terminar o movimento. Acordou em casa, aninhada no cobertor e sabendo que tinha sofrido uma experiência incrível. 


3 comentários:

  1. Adoro seus contos!
    ~S.V.

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    1. Muito obrigada!
      Fico feliz que os bons e velhos leitores continuem fiéis por aqui! <3

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    2. Muito obrigada!
      Fico feliz que os bons e velhos leitores continuem fiéis por aqui! <3

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